domingo, 18 de agosto de 2013

A comadrinha que ninguém conheceu - por Oracy Dornelles



Foto da Comadrinha - internet

"Comadrinha " não era uma mendiga como quase todos pensavam. Conheci-a quando ela trabalhava como uma espécie de governanta de um advogado local, um advogado daqueles antigos, que não cursou faculdade, mas que atuava com muita intensidade no Fórum local. Ela morava em sua residência, (escritório), num "puxado" feito para ela. Fazia comida, cuidava da casa e lavava as roupas desse advogado. Ele a tratava muito bem, vestia-a e lhe dava todo o conforto possível. Esse advogado, hoje falecido, foi figura  à parte: fazia seus trabalhos forenses  em uma antiga Remington, mas batia com um dedo só. Com o tempo, depois de muito esforço, conseguia bater as teclas com dois dedos. Também possuía uma invejável biblioteca, com milhares de livros, quase todos virgens, pois se dizia um apaixonado por literatura, embora nunca fosse correspondido  nesse amor platônico...         Mas tinha bom coração. Pagou todas as despesas funerárias quando a "Comadrinha " faleceu. (Curioso: esse mesmo advogado também pagou as despesas de funeral do poeta Filinto Charão, morto em Santiago na extrema miséria!!!)... (Moravam na minha rua... e eu cruzava  todos os dias por essa casa, daí não me esquecer nunca da  "começão de milho" quando esse curioso causídico  datilografava seus requerimentos e petições, a dois dedos...  Essa foi a "Comadrinha" que conheci. Não uma mendiga com uma trouxa às costas, mas como uma trabalhadora doméstica, fiel, honesta e servidora...  Não uma velhinha inútil, de bengala e com uma trouxa nas costas, como é atualmente lembrada...         
(ORACY  DORNELLES)


Eu e o Oracy...na Feira do Livro de Santiago (2011)

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