sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 29 de novembro de 2013 - Continho Macabeu - por Giovani Pasini

Continho Macabeu

Era uma vez, uma adolescente nominada de Macabéa. Jovem colona, nascida na beirada dos desfiladeiros, entre Jaguari e Santiago, ela teve o seu nome inspirado num grande livro da literatura. Pouco entendia de Língua Portuguesa, pois a sua italianidade havia pendido para a fabricação de queijos, salames, vinhos, gritos e todos os derivados. A maior qualidade da moça era o fato de possuir a inocência predominante nos povos do interior: acreditava na palavra emitida pela boca de qualquer interlocutor. Esse era, também, o seu pior defeito. Macabéa construiu sonhos de prosperidade, devaneios de amor, ao lado de um príncipe encantado que a levaria para um castelo enorme. Certa feita, numa tarde de verão, conheceu um rapaz com os trejeitos da cidade. Ele disse: “– Olá! De onde saíram esses dois belos olhos azuis?”. “– Oi. Sou daqui, de perto de Ernesto Alves.” – respondeu a moça. A beleza chega bem antes da maturidade. A malandragem, ao contrário, incorpora em alguns, independentemente da idade. Quem é o mais forte, o malandro ou a inocente? Na menina, cada uma das letras repetidas, sentidas e ouvidas criaram um mundo de ‘faz de conta’, escondido atrás das retinas. Era única, era amada, era feliz. Ao menos, até se tornar mãe solteira, com filho de pai desconhecido. Os genitores de Macabéa não aceitaram a surpresa. Ela também não superou. Os únicos desejos que teria para o futuro, a partir da enganação, seriam Coca-cola e Sonho de Valsa. A solidão fora escolhida como companheira, para o coração dilacerado. A natureza (de barrancos e corredeiras) não prepara o ser humano para conviver com o ser humano. Certo dia, Macabéa foi encontrada dependurada numa árvore, no alto de uma cota, pertinho do rio Curussu. Naquele local, dizem os moradores, até hoje corre uma voz pelo vento, num choro constante, em busca da mão que apenas queira acariciar.


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