sábado, 1 de fevereiro de 2014

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 24 de janeiro de 2014 - Doralina de Jesus - por Giovani Pasini

Doralina de Jesus

Doralina era uma mulher solitária. Adorava ficar sozinha. Dora, como chamavam os poucos íntimos, acreditava em Deus. Ela carregava a convicção da existência Divina, mas desacreditava todas as religiões. Certa feita, numa reunião com poucos amigos, passaram a debater as doutrinas mais comuns: a católica, a evangélica e a espírita. Doralina lançou um conceito filosófico importante, para quem crê em Deus – “a fé está alicerçada sobre a dúvida e não em cima de certezas”. Como assim? Toda a crença em Deus é subjetiva, individual, não comprovada, por isso a necessidade da fé (boa parte das vezes, falível). Doralina percebeu bastante paixão nos olhos dos interlocutores. Estavam todos convencidos, nas suas dúvidas, de que o Divino existe mesmo. Debater Deus, caro leitor, é diferente de discutir sobre religiões. Deus é o destino, o ponto final. Já as religiões, desde que provem o contrário, são apenas veículos para o destino. O problema é que gostamos de fanatizar muito – futebol, religião, política, entre outros. Pegamos, geralmente, veículos que possuem condutores esquizofrênicos. Doralina era sozinha, mas por escolha. Não estava depressiva e adorava viver. A cada noite, na sua casa, acompanhada de uma xícara de café ou chá de camomila, ela apontava o indicador para os céus e indagava: por quê? A resposta, usualmente, era – (é seu o livre arbítrio. A raça que você faz parte é uma falha genética, oriunda de macacos. Nem sempre aperfeiçoamos o barro). Doralina se casou com os próprios princípios, também mutáveis. Morreu abraçada a um homem-bomba, numa cerimônia ecumênica, lá perto de Jerusalém.

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