sábado, 22 de março de 2014

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 21 de março de 2014 - A chuva e o suor - por Giovani Pasini

A chuva e o suor


Gosto de relembrar as histórias contadas por meu velho pai, falecido em 2009. Ele narrava fatos de sua infância, vivida numa colônia italiana, lá no Alto Uruguai, onde acordava cinco horas da manhã, caminhava cerca de oito quilômetros e trabalhava o dia todo na lavoura, debaixo do sol escaldante. A mão ficava calejada e as costas vermelhas e ardidas. O suor banhava a carne. Pela testa escorria um rio de trabalho: árduo, difícil, lento. A enxada e a foice não eram tão rápidas quanto as atuais máquinas da contemporaneidade. O arado ainda era puxado por bois. No meio da manhã, o almoço dos colonos era pão e salame, acompanhados de um caneco de água ou vinho. A dicotomia da existência: dificuldade e valor. Quando as coisas surgem com penosa conquista, nós as valorizamos muito. Se elas são de fácil acesso, de pouca “utilidade marginal”, não damos importância alguma. O mesmo acontece com os exemplos. Hoje está chovendo bastante; a chuva relembra as histórias de meu pai. O chão de minha casa possui, agora, pequenos riachos de lágrimas. Quando eu era pequeno, não gostava dos dias de tempestade. Reclamava, pois o pátio magnífico, com ameixeiras e pessegueiros, não podia ser explorado. Um dia, quando eu tinha uns dez anos, meu pai disse, de forma pausada: “- Eu gosto de tempestades. Na minha infância, eu só podia brincar quando chovia muito. Nós não podíamos trabalhar na roça e ficávamos brincando no galpão. Estar preso era estar brincando, ou seja, livre.” A partir daquele dia passei a respeitar (mais) a chuva e, principalmente, o suor.

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