sexta-feira, 20 de junho de 2014

Artigo 002 da Revista Beebop - Crônicas antropofágicas - Seleção das espécies


Crônicas ANTROPOFÁGICAS
por Giovani Pasini

Seleção das espécies

Ser inteligente é ser seletivo. Usar a inteligência é saber dizer ‘não’, deixando de aceitar tudo, em cima dos ombros. O grito de independência começa com as palavras faladas, não com as ouvidas.
O maior problema, no século XXI, é que as redes sociais nos tornaram abrangentes demais; enfiados demais; curiosos demais. Deixamos de viver a individualidade, aquela que nos tornava únicos, e passamos a compartilhar clichês e frases feitas. Não somos tão bons assim; na verdade, nunca fomos. Enaltecer um passado que não mais existe - seria uma tolice - pois hoje estamos globalizados. Contudo, perdemos a lentidão dos momentos: esquecemos a leitura na sombra do silêncio; abandonamos os passeios no campo; nunca mais comemos frutas direto da árvore; pescar? Trilhas às margens dos rios? Subir e descer colinas? Nada. Nada. Nada. A felicidade é medida pelo número de curtidas. Parecer é bem melhor do que ser.
Globalizar não pode se tornar uma limitação para a nossa personalidade. Não podemos ter uma vivência tão rasa, tão rasteira, que se torna apenas a contagem de compartilhamentos de pensamentos de outrem. Precisamos da poesia (quase) original; da explosão do ideal (quase) inédito; da paixão (quase) incomum. A originalidade, caro leitor, está na forma como montamos o “quebra-cabeça”, a “colcha de retalhos”, de nossa psique. Não existe o super-homem ou a supermulher: querendo ou não, sabendo ou ignorando, nós sempre teremos muitas qualidades e vários defeitos.
Ser inteligente é ser seletivo. Usar a inteligência é saber dizer ‘não’. Deixar de: fazer por fazer, malfazer, ver, rever, subir, descer. Materialismo, ostentação? Deixar de invejar o “parecer” e todos os verbos que praticam o “quase-ter”. Não somos perfeitos, já brigamos muito. Alguns dos combates, ideológicos, fazem parte do orgulho de nossa convicção. Falar mal, todavia, não deve ser um esporte macabro. Torna-se sabedoria compreender as discussões como parte do existir; as mágoas como elementos do coexistir; as vitórias, as derrotas, como consequências do resistir (pelejar, sobreviver).

A individualidade passa por cuidar da própria vida, dos limites da família, das interferências dos verdadeiros amigos e, principalmente, do domínio da arte de dizer ‘não’. Adicionar(-te) ou não? A vida é seleção.

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