quarta-feira, 15 de julho de 2015

Artigo do Jornal A Razão - 15 de julho de 2015 - Tide Lima


Tide Lima
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Tide Lima era um grande contador de histórias. Ele era livreiro.
 As palavras, sua principal diversão. Por intermédio das letras, ele brincava e brigava – tudo em nome de sua alma trabalhadora. Aliás, no Brasil de 2015, quem não é batalhador? Quem não é defensor de uma posição binária, que nos acompanha? Maragato ou Chimango? Bom ou mau? Certo ou Errado? Azul ou vermelho?
Mas o Tide era diferente. Ele gostava de livros.
Tínhamos duas coisas em comum, motivo desse artigo: ambos gostávamos de livros e de Santa Maria. Conheci-o em 2008, num sebo em Santiago, na Rua dos Poetas, a cerca de 150 km da Boca do Monte. Ele era um dos donos do local, uma pequena loja debaixo de escadas, com livros novos e velhos, deveras aconchegante. Lá, muito conversamos sobre autores, obras e ideologias.
Depois daquilo, em 2010, quando vim para Santa Maria, acabamos nos distanciando um pouco. Apenas visualmente. Acompanhava-o por seu blogue e, de vez em quando, lia os seus textos combativos.
Certa feita, agora em 2015, na barbearia do César, na rua Serafim Valandro, nos encontramos novamente. Lembro do Tide Lima dizendo: “Pasini, gosto de Santa Maria. Gosto daqui, porque não é tão grande quanto Porto Alegre, nem tão pequena como Santiago. Tu sabe que Santiago faz a gente brigar, né? ” Concordei com o Tide Lima. Quem conhece Santiago, sabe que lá não se fica em cima do muro. Você tem que ser Maragato – se não for – é Chimango. Nada de dúvidas.
Realmente, já me considero um “Santa-Maguiense”, uma mistura de Boqueirão com Boca do Monte. Se Santiago é o sangue, Santa Maria tomou forma de carne. A afetividade é quântica, interliga e termina com qualquer indecisão.
Na barbearia, eu e o Tide falamos sobre o prazer de pegar um bom livro de sebo e tocar a textura daquele papel usado; sentir o cheiro das páginas e perceber os sonhos dos escritores. Falamos sobre a importância da leitura para a cidadania...
Após eu cortar o cabelo, nos despedimos carinhosamente. Éramos rivais ideológicos, sempre fomos, mas nos respeitávamos como humanos inteligentes. Respeito. Palavra importante para o século XXI, que anda faltando em nossos diálogos, principalmente nas redes sociais. Lembro que, no final, ele completou: “Pasini, se não fiz tudo certo na vida, com certeza fiz com o máximo de paixão”. Paixão.
Menos de uma semana depois daquele encontro, o livreiro Tide Lima teve um enfarto e faleceu. Hoje, neste importante jornal do RS, perenizo um pouquinho das letras que formam a nossa alma. Perenizo aquele aperto de mão e o baita abraço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por deixar o seu comentário neste blog.
Agradeço o tempo investido nesta comunicação.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...