quarta-feira, 29 de julho de 2015

Artigo jornal A RAZÃO - 29 de julho de 2015 - Pão com mortadela



Pão com mortadela
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Lembro daquela viagem, ainda criança, em que saí de Santiago do Boqueirão, rumo a Porto Alegre, numa excursão gratuita para a votação de uma diretoria do GBOEX (Grêmio Beneficente de Oficiais do Exército), entidade hoje falida, que afiançava seguros diversos.
Eu tinha apenas 10 anos e nunca havia visto uma cidade grande. Nem mesmo tinha visitado a nossa amada Santa Maria, tão comentada nos bairros de minha terra.
O motivo dessa narração é a marca profunda que a viagem me causou e, sabendo também, que o leitor poderá se identificar com essa simples aventura.
Depois de horas de sacolejos dentro do ônibus, com pessoas desconhecidas e acompanhado de meu pai, chegamos na capital do Rio Grande. O primeiro susto, ao passar pela orla do Guaíba, foi observar aqueles navios imensos, parados, que eu somente havia enxergado nas imagens da televisão, ou imaginara nas historinhas infantis, que iam do Popeye até Nautilus.
Ao chegarmos no centro da metrópole, próximo à rodoviária, paramos em frente a um imenso prédio, de quase trinta andares. Eu, nascido numa cidade do interior, conhecia apenas uma edificação de “incontáveis” dez andares. Mais do que isso, aquele local era rodeado de arranha-céus, boa parte revestidos de mármore.
Porto Alegre me pareceu um gigante barulhento, com seus sons e buzinas. Com certeza era um gigante com tuberculose...
Na base do edifício onde desembarcamos, todo decorado de mármore negro, havia uma lanchonete. Fomos encaminhados para lá, com o objetivo de comermos o único lanche doado. Na passagem pelas pilastras, enormes pernas de ciclopes, passei a mão suavemente, sentindo a maciez fria e lisa daquela pedra polida, o mármore.
“Como um humano pode construir isso? ” – Pensava.
A marca mais profunda, contudo, foi a causada pelo cheiro e, principalmente, pelo gosto daquele desconhecido pão francês, o famoso “cacetinho”, recheado com margarina e mortadela.
Na minha casa, nos pampas, éramos acostumados com o pão caseiro, amassado pelas mãos belas de minha mãe, elaborado com farinha de trigo e fermento. O “pão de casa”, que parecia não ter sabor especial.
Confesso que, até hoje, aquele gosto – o do pão com mortadela – me confunde.  Naquele momento, eu ainda não sabia que dois anos depois iria para um colégio interno, em Porto Alegre.
Não sabia, também, que anos depois sentiria saudade do pão caseiro, de meu pai e da massa embolada, branca, esmagada pelo carinho de minha mãe.


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