quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Jornal A RAZÃO - 26 Ago 15 - Noite, café e saudosismo... (Para Oracy Dornelles)


Noite, café e saudosismo...
(Para Oracy Dornelles)
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Gosto da noite.
Desde criança, sempre preferi o aroma do vento noturno, acompanhado do brilho das estrelas, do que o calor ensolarado do dia, com seus movimentos excessivos.
Nas noites, ainda menino, adorava ver os faróis dos carros batendo nas paredes das casas. Ficava parado, vendo aquela mistura de luzes e sombras, que criavam figuras e monstros. Também sentia um frio na barriga, quando animais voadores (aves ou morcegos?) passavam perto dos ombros, nas brincadeiras de esconde-esconde. Para a imaginação fértil de menino, o anoitecer era a liberação de vampiros e lobisomens (estes, somente em caso de lua cheia). Quando deitávamos para dormir, os vultos dos galhos das árvores ficavam balançando, perto da janela do quarto, impedindo o sono por várias horas. Era o medo mais terrível do mundo!
Nos verões da infância, o crepúsculo alaranjado abria aquelas noites quentes, abafadas, quando insetos (suicidas) procuravam a luz de qualquer poste. Vaga-lumes e cigarras enfeitavam o ocaso. Era o anoitecer das férias, sinônimo de liberdade, corre-corre e de chinelos.
Lembro que, na adolescência, pedi para a minha mãe: “- Posso amanhecer assistindo filme? ”. Naquela época, nós gaúchos tínhamos um ou dois canais de TV, e sábado sempre prometia: “Supercine, Sessão de Gala, Corujão...”. Minha mãe deixou. A sensação de completa satisfação surgiu, naquele domingo de manhã, ao ver a escuridão acabar e observar o sol nascendo... Eu havia vencido o cansaço carnal, dessa metáfora que se chama corpo!
Gosto da noite.
Ainda experimento um frenesi quando consigo assistir a diversos filmes seguidos. Penso, comigo mesmo, que se existir um paraíso, ele estará repleto de madrugadas, de filmes e de bibliotecas (sentaremos, caro leitor, ao lado de Jorge Luís Borges e tomaremos um café).
Agora, adulto, adoro “madrugladiar” numa boemia poética, em debates filosóficos que levam a quase nada e a lugar algum. Falar com amigos e ficar amassando os cantos de guardanapos; divagar por besteiras e tentar achar as soluções para os problemas ontológicos do mundo. Rabiscar, nos mesmos guardanapos, ideais originais ou conhecimentos aprendidos. Reinventar a roda...
Gosto da noite. Ela me lembra um copo de vinho, uma cuia de chimarrão e a textura de um bom livro. Ela tem o gosto de café, o som do silêncio, o cheiro da imortalidade e a maciez do saudosismo. A sua cor é sombria, mas ilumina diversas almas.
Ela é a mãe dos cinco sentidos e a amante do sexto.
Quando bem tratada, a noite proporciona uma sinestesia de eternidade. 

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