quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Artigo Jornal A RAZÃO - Banho com Iemanjá - 02 de setembro de 2015


Banho com Iemanjá
(Para a amiga Maria Rita Py Dutra)
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Era verão e amanhecia em Olinda, Pernambuco.
Fábio estava cansado. O seu desgaste, contudo, não era somente físico. Existia, no fundo de sua alma, um cansaço que o massacrava, apertando o próprio coração, quase esmagando o peito.
Há alguns instantes, com a calça do terno enrolada até as canelas e os sapatos carregados nas pontas dos dedos da mão esquerda, ele havia chegado naquela praia ainda deserta. Trazia consigo toda a dor do mundo e um pote de argila.
O mar, tão cantado por Fernando Pessoa e Cecília Meireles, agora parecia maior e mais intenso, diante da sensação de pequenez que se apossava do homem. O oceano, aquele símbolo forte, quantas vezes subjugado e tantas subjugador das almas humanas.
Agora, sendo testemunhas das lágrimas de Fábio, as ondas alcançavam as areias finas, cobrindo, por vezes, seus pés morenos. Levavam, também, cada uma das gotas de inconformidade, que caíam da face daquele único humano que transitava pela orla de Olinda.
“A solidão é passageira?” – Pensava ele. – “A solidão, algoz, acaricia no mesmo instante que ofende...”
Fábio sentou na areia branca. Colocou o pote de argila no chão, ao lado dos sapatos. Enxugou as lágrimas, encheu os pulmões fortemente e expirou: uma, duas, três vezes.
Os poucos minutos pareceram anos, décadas, séculos! Quando o primeiro transeunte passou, as lágrimas retornaram, ainda mais fortes. Fábio resolveu ficar em pé. Soluçou. Arfou. Gemeu.
“A solidão é passageira?” – Questionava-se mentalmente.
Pegou o pote e caminhou em direção ao mar. Quando as águas do Atlântico atingiram os seus joelhos, ele parou. Respirou pesadamente. Chorou mais um pouco.
Enfim, abriu a tampa daquele potezinho de argila. Jogou o pó escuro por toda a sua volta. Enquanto esvaziava o recipiente, ele gritava:
- Aí está, Diara! Aí está a promessa! Aí está um banho com Iemanjá!
O pote esvaziou.
- O teu banho com Iemanjá... – Repetiu.
Na água, ele se ajoelhou e chorou.
Naquele instante, ele ainda não sabia que a solidão é realmente passageira; o amor... o amor não!



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