quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Artigo Jornal A RAZÃO - 16 de setembro de 2015 - A força de um leitor - para outro leitor: Miguel José da Silva (78 anos)



A força de um leitor
Para outro leitor: Miguel José da Silva (78 anos)
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Um jovem me puxa pelo braço. Confesso que, inicialmente, fiquei assustado, em virtude da força empregada. Estamos dentro da livraria Athena, no centro de Santa Maria. Ele fala comigo, sem soltar o meu antebraço:
- Oi... Você que é o professor Giovani Pasini?
Estranhei o reconhecimento. Seria algum aluno antigo? Tenho o péssimo defeito de esquecer os nomes das pessoas. Dificuldade de família. A minha mãe, por exemplo, usualmente erra o nome dos próprios filhos. Mas de fisionomia eu não sou ruim. E aquele guri, nunca lembrava de ter visto. Pele clara, barbudo, cabelos compridos e desarrumados.
- Sim, sou eu. – Respondi.
Fiquei quieto, esperando as próximas palavras. Eu não queria dar mancada. E se o conhecesse? O que fazer nessa hora, quando os segundos parecem eternidade? O pior é que ele também ficou quieto, não me soltou e permaneceu balançando a cabeça, esboçando um leve sorriso. Quem seria ele? Puxei levemente o meu braço, introspectivo que sou. Queria me livrar daquele toque. Infelizmente nós, humanos, não somos criados para sermos tocados. Triste constatação. Ele não falava nada e resolvi arriscar:
- Pois é, né? – Falei. Consegui me livrar de sua mão, sem parecer haver ofendido.
- Isso aí... – Completou ele. Silêncio de novo. Ele com o sorriso na boca.
- Qual é teu nome mesmo? Eu fui seu professor? – Perguntei, para quebrar a mudez.
Ele mexeu o pescoço, numa resposta negativa.
- Não, não. É que lá na faculdade rolou o teu artigo, ‘da Razão’; aquele do Ensaio sobre Santa Maria. Gostei muito, principalmente da parte do aluno cabisbaixo que faz amigos. Legal, né? Tem como tu dar um autógrafo, num caderno?
Nada como algumas palavras de elogio, para qualquer susto ir embora. Nós, escritores, temos a vaidade à flor da pele. Não é egocentrismo, mas carência. É a felicidade de sermos reconhecidos por nossas letras. Arte. Literatura.
- Claro! Qual é o teu nome?!
- Pode dedicar para a minha mãe? Ela se chama Joana. – Ele me deu um caderno amassado. Cheio de folhas rasgadas, com desenhos e rabiscos. O que eu escreveria? Tinha que desenrolar e assim o fiz: “Para Joana, com fraterno carinho, do professor e escritor Giovani Pasini”. Coloquei a data e assinei. Ele sorriu um pouco mais. Pegou o caderno, olhou e guardou na mochila. Deu dois tapas no meu ombro e complementou: 
       - “Nada como uma terra que não é natal, mas que você acaricia com os olhos”. Obrigado!
Era a última frase do artigo que eu havia escrito. Texto que ele gostou. O jovem saiu da livraria e nem ao menos se identificou. Fiquei parado, quase atônito. O que fazer? Só posso agradecer. Obrigado rapaz, qualquer que seja o teu nome. Tua força no meu braço, teus carinhos no meu ombro; não sabe o quanto serviram de motivação para eu continuar a escrever.

Um texto, quando lançado num jornal, passa a também ser do leitor.

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