quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Artigo do Jornal A Razão - 23 de setembro de 2015 - O redemoinho da praça

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O redemoinho da praça
Para Carlos Alberto Bellinaso: o sonhador da literatura

Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Segunda-Feira.
Nunca havia reparado os detalhes da praça Saldanha Marinho.
Chovia e eu percorria o centro de Santa Maria, sem guarda-chuva, esquivando-me por debaixo das marquises. A chuva não era intensa, ao contrário, não passava de uma garoa fina, típica de setembro. Eu, contudo, parei na quina da praça, perto da ponte que sobrepõe o túnel.
A minha cabeça começou a ficar confusa, meio a observação de transeuntes, alguns indiferentes ao presente. Fiquei mais introspectivo, ao contemplar as árvores verdes, os canteiros verticalmente construídos e os monumentos do passado. Era uma engenharia interessante – essa praça – no coração da cidade, do Coração do Rio Grande.
Olhei para cartazes juvenis, únicos, com sorrisos eternizados. Senti um grande vazio; conheci a imensidão e o peso do mundo; experimentei a opressão da temporalidade, com a sua fugacidade incrível. Todos os caminhos levavam ao núcleo de minha solidão. No mesmo instante, um senhor taciturno parou ao meu lado. Tinha uma bengala e ficou batendo, batendo, batendo no chão. O movimento lembrava o ritmo da revolução farroupilha, lento e doído.
A água molhava o meu corpo.
Nunca havia reparado os detalhes da praça Saldanha Marinho. As diversas janelas, o mercado popular, a SUCV, o “Theatro 13 de maio”. Principalmente, as pessoas. O nosso mundo não é feito de coisas, mas de indivíduos. A verdadeira terra é feita de humanos. A praça é significativa: as construções, os detalhes, suas edificações extemporâneas. Contudo, é o redemoinho de interações que a torna diferente de muitas outras praças abandonadas. O redemoinho de gente... Indo, vindo, arrodeando, girando, voltando, falando, correndo, chorando, sorrindo.
Até hoje, enquanto dedilho essas letras, ainda ouço os murmúrios das crianças acompanhadas de cachorros; os sussurros de namoradinhos entusiasmados com o primeiro beijo; os movimentos repetitivos da mãe que nanava o próprio bebê, num carrinho rangente. A história que permanece – a real – é a que ocorre dentro de nossa memória. A subjetividade da lembrança é a única veracidade consistente. Ela é o que há de mais importante... A nossa verdade.
Nunca havia reparado os detalhes da praça Saldanha Marinho.
Talvez, quem sabe, também nunca houvesse reparado em mim mesmo. Érico Veríssimo, filho da terra dos ventos uivantes, local de cruzes altas, disse: “Eu me amo, mas não me admiro”. No redemoinho da praça Saldanha Marinho, também não me admiro.
O que aprecio, na nossa insanidade coletiva, é o fluxo de vida corrente. Incoerente.

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