quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Artigo Jornal A RAZÃO - 14 de outubro de 2010 - O Vendedor de Picolés




O vendedor de picolés
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Por falar em costumes antigos, alguém lembra o quanto era moda vender picolés? Parece que não faz muito tempo, mas a mocidade de hoje, na maioria, nem sabe o que é isso. Costume perdido, que era tão usual para os jovens da década de 80 e 90.
***
Eu tinha 12 anos de idade. Era 1987. Comecei a vender picolé de uma sorveteria que tinha na rua Osvaldo Aranha, em Santiago. Na verdade, os vendedores de picolé eram três: eu, o meu amigo Volnei Polga e seu irmão Robson Polga. O nosso sonho era ficarmos ricos!
Pegávamos as caixas de isopor e "Shhhisp", saíamos quase que correndo rumo às vendas. Lembro que competíamos para ver quem comercializava mais. Os famosos gritos: "- Picolé, sorvete!" nas ruas de paralelepípedos azuis, com o sol escaldante e a esperança de uma boa vendagem. A cada casa, em toda residência, imaginávamos tesouros escondidos, prontos para serem entregues em troca de um saboroso picolé. Éramos negociadores, vendedores, autônomos e, principalmente, livres.
Entretanto, nem tudo eram flores. Como todo jovem, eu tinha imensa vergonha da possibilidade de algum colega de escola me ver vendendo picolé. Ai, ai, ai! Pior ainda se o colega fosse uma menina! Aconteceu uma vez, apenas uma vez. Eu observei a colega, de nome Isabel, e dei meia-volta, quase saí correndo em disparada. Passadas largas, coração saltitando. A minha mãe me disse, naquela época: "- Vergonha é roubar e não poder carregar!" Velho adágio popular. Fácil falar! Difícil era incutir isso na cabeça de um pré-adolescente. Lembro que no dia seguinte, a Isabel me perguntou: “- Era tu que estava vendendo picolé?”
Vocês acham que eu neguei ou falei a verdade?
***
Certa feita, numa tarde de calor infernal, um homem perguntou: “- Você tem picolé de cachaça?”. Envergonhado e inocente, respondi que não. Então ele me disse: “- Quero comprar todos os picolés de sua caixa, mas escolha um para você!” Instantes depois, eu voltava para a sorveteria, com um picolé de morango cremoso e com a caixa vazia.
Quase um ano depois, eu já tinha um bom dinheiro. Mais importante do que isso, era o valor sentimental que eu dava para ele, pois havia sido obtido com muito suor. Suor.
***
Atualmente, toda vez que escuto os raríssimos “- Picolé! Sorvete!”, eu giro a cabeça para olhar quem carrega a caixa de isopor. O jovem que trabalha dessa forma deve se orgulhar! Pode até ser que fique cansado agora, mas no futuro terá ótimas lembranças e diversas façanhas para contar. No meu caso, por exemplo, quando chega o verão, recordo aquele passado feliz, desbravando as ruelas de uma cidadezinha do interior. "- Picolé, sorvete!"

(Republicando um texto do passado!)

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