quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Artigo do Jornal A Razão - 18 de novembro de 2015 - Padre Atino





Padre Atino
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Amar é – verdadeiramente – um ato humano.
Mas... Quantas vezes você já sentiu raiva de alguém?
***
Atino era um jovem padre, que buscava não ter ódio. Entretanto, foi de repente. As palavras inadequadas saíram daquela boca, ofendendo-o com o maior dos vigores.
Os segundos que se passaram, logo após a injúria, transcorreram num absoluto silêncio, ainda com todas as sensações imóveis. As paredes não se mexiam e o tempo estava num daqueles raros instantes, que parece não haver o depois.
Os próximos pensamentos, envoltos pela mágoa, foram de retrospectiva, relembrando toda a sua existência. Nasceu triste, ficou em pé, cresceu e sustentou as inquietações que o transformaram no que ele era: um respeitado pároco.
Em momento algum, na sua vida de sacerdote, pensara em desistir – até agora. Tinha sobrepujado os desejos mais secretos; havia dominado as necessidades carnais que Roma considerava obscuras; manteve a sua fé, com paciência, em nome da doação. Doar em silêncio – essa era a sua vocação.
Na juventude, pensara que conseguiria suportar as mesmas chagas de Jesus e padecer em qualquer calvário. Após aquele ultraje, contudo, retornava a ser apenas uma criança indefesa, com medo dos fantasmas que flutuavam na base de sua cama de menino.
Uma palavra, uma pessoa, várias indecisões. Olhava aquela mulher opulenta, larga, obesa e pensava “Eu nunca fui isso!”. No fundo dos olhos femininos, gélidos, perdurava uma friesa que ele nunca vira igual.
Ele tentou se defender: “Mãe...”, mas foi interrompido, com a repetição do insulto: “Você é um grande egoísta! Egoísta!” Aquela voz aguda o encobriu, como um amplo manto negro, forte e tenebroso.
Somente ali percebera que uma frase tinha tanta força quanto diversas adagas.
Descobriu, então, que uma menção também poderia vir a ser um demônio feroz.
***
Atino queria paz. Deixou de ser padre e resolveu ser humano...

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