quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 18 de dezembro de 2015 - Santiago: da coxilha ao boqueirão



Santiago: da coxilha ao boqueirão

Era uma vez uma grande cidade. A sua importância não era medida pela quantidade de habitantes, ou por extensão territorial. A relevância, de suas terras e de seu povo, residia na quantidade de adjetivos que ela possuía. A sua força telúrica, nativa, estava na paixão adjetivada. Aliás, os adjetivos são essenciais! Alguns escritores têm pavor dessa classe gramatical, por pensarem no rebuscamento de sua função. Contudo, vejo os adjetivos com muito carinho, pois caracterizam as coisas. Eles poetizam a amargura da vida real e escondem – ou mostram – todos os nossos defeitos. Os poetas adjetivam o mundo! Por falar nisso, a amada “Terra dos Poetas”, que se estende por sobre uma coxilha, oriunda de um boqueirão, surge como uma imensa folha de papel, cheia de códigos e símbolos. Ela está versificada em casebres misteriosos, em ‘cantares e ares’; em apartamentos taciturnos, nos prédios medianos. Santiago está em entidades já criadas e nas que ora surgem, enaltecidas pelo objetivo institucional; está, também, nas ruas de paralelepípedos azuis ou nas praças verdejantes; Santiago do Boqueirão possui ‘gente e legendas”, uma relíquia nas pessoas. Está em tudo, nas entrelinhas... Santiago, adjetivamos-te! Aos escritores que não gostam de caracterizar, colocar defeitos ou qualidade, respeito a postura. Todavia, a rapidez da vida que passa, não nos deixa somente substantivar os sonhos, atributo para mestres como João Cabral de Melo Neto e outros ‘engenheiros da palavra’. Para mim, por exemplo, Santiago não passa de um mero adjetivo: imensurável. Afinal, a leveza da criança nunca será a própria criança. 

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