sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - A árvore andante - 19 de fevereiro de 2016



A árvore andante

Era uma vez uma árvore que não gostava de ficar parada. Ela achava que todos os seus dias de existência haviam sido inúteis, em virtude daquela vida imóvel. Estava totalmente descontente com a sua realidade de raízes longas, profundas, sempre na mesma posição em relação ao mundo. Era realmente uma árvore triste.

Certa feita, pediu ao jabuti que a ajudasse de alguma forma, pois ela queria conhecer as belas coisas do planeta: navegar pelos oceanos; ter a sensação inebriante de todos os amantes; subir e descer morros, em horizontes distantes. O jabuti – mesmo com pena – não pode ajudar, pois achava que cada um tinha a sua característica, na diversidade. Infelizmente, esse não era o pendor da planta. A árvore brigou com o jabuti.

Um dia, de tanto pedir para todos os animais que passavam pelo seu caule, acabou conhecendo o ardiloso coiote, que ouviu todas as suas angústias. O canino maquiavélico disse: “- Deixa comigo! Sou seu amigo... A cada dia iremos cortar algumas de suas raízes e você sairá andando!”

E assim foi. O coiote trouxe um humano que, em poucas horas, cortou metade das raízes da árvore. Naquele momento, a planta sentiu-se cansada, mas um pouco mais livre. Nos dias que se passaram, entre cansaço e liberdade, restou a última raiz de vida; que foi cortada.

Após o fato, o coiote foi adulado com carnes fabulosas. A árvore percorreu vários locais do mundo – morta – em móveis interessantes, de frígidos humanos. A liberdade tinha sido o seu fim.


(Nossas raízes são a nossa energia).

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